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  • Genética e epigenética: influências na perfomance esportiva

     

    Na sequência da temática sobre Periodização Bioflexível abordaremos agora a Genética e a Epigenética, bem como as implicações para o desporto.

    Conforme descrito na literatura científica mundial, em especial a partir do projeto Genoma, as particularidades das heranças genéticas possuem grandes implicações no desenvolvimento da vida humana. No esporte não é diferente, temos características marcantes “herdadas” que possibilitarão maior ou menor rendimento esportivo direto ou indireto.

    Estamos aqui falando de atletas “outliers”, ou seja, diferenciados, extraordinários, fenômenos, nos quais a herança genética implica diretamente na alta performance.

    Se somos capazes de identificar, a partir de marcadores específicos, traços e caraterísticas peculiares que favorecem para o desenvolvimento de práticas esportivas mais voltadas para RESISTÊNCIA, POTÊNCIA OU FORÇA, podemos sem muitas dificuldades “selecionar” desde a infância futuros campeões. Importante também serem consideradas todas as questões relativas à sociologia e a ações voltadas para a inclusão e para a exclusão de crianças nos clubes, nos projetos sociais e nas escolinhas, porém, este não é o objeto de debate, já que o enfoque exclusivo está na alta performance.

    Atualmente já estão disponíveis vários testes de custo relativamente baixo para essas análises e tomadas de decisão por parte do staff. No Brasil, diversos laboratórios já possuem essa ferramenta. Isso possibilita uma oportunidade a ser preenchida pelos profissionais de Educação Física, que podem tomar posse do que impactará diretamente no trabalho de treinamento de longo prazo (TLP).

    Merece também destaque a EPIGENÉTICA, ou seja, tudo o que o atleta estará exposto ao longo de sua vida (pessoal e esportiva) e quais foram as alterações que foram provocadas em algo “pré-programado” pela herança genética. Isso quer dizer, os fenômenos epigenéticos no esporte referem-se ao processo no qual a informação genética de um organismo interage com o ambiente e com as vivências esportivas, o chamado lastro fisiológico.

    De uma forma mais profunda, esses podem alterar o estado dinâmico da cromatina, podendo influenciar o fenótipo do indivíduo, sem mudanças na sequência dos nucleotídeos (Rountree, M.R., et al., DNA methylation, chromatin inheritance, and cancer. Oncogene, 2001. 20(24): p. 3156-3165).

    Para nosso enfoque a questão que paira é: How much is to much? Quanto e quais são os treinamentos ideais? Quais os intervalos ótimos? Qual o enfoque principal em cada período do planejamento (periodização)? Qual a longevidade desse atleta ou de sua carreira? Seria possível reprogramar para que tivesse uma carreira mais longa com alta performance? Essas são algumas questões que abordaremos ao longo das publicações e que merecem aqui nesse terceiro artigo uma boa introdução.

    Alguns achados atuais correlacionando a epigenética ao exercício físico esclarecem o que pode estar impactando diretamente na prática desportiva e na performance, assim como na “duração” da alta performance. Em outras palavras, na longevidade do atleta em alta performance.

    Seguem alguns dados publicados para reflexão:

    • O treino de força em humanos já foi capaz de alterar a metilação do DNA em marcadores periféricos, adipócitos e tecido muscular, além de modificar a expressão proteica de fatores de crescimento (Denham, J., et al., Epigenetic changes in leukocytes after 8 weeks of resistance exercise training. European Journal of Applied Physiology, 2016. 116(6): p. 1245-1253.).

    • Trabalhos na literatura também têm avaliado o efeito de diferentes modalidades de exercício em marcadores epigenéticos na região promotora de genes, relacionando essa modulação com achados de expressão. O exercício aeróbico voluntário reduziu os níveis da enzima HDAC (Histona desacetilase), aumentou a acetilação da histona H3 em hipocampo, impactando nos níveis BDNF (fator neurotrófico derivado do encéfalo). O déficit de memória do envelhecimento está relacionado com a redução nos de níveis de BDNF tanto em estudos com humanos quanto em modelos animais e protocolos de exercício físico e são capazes de modular os níveis dessa neurotrofina em animais jovens (Canivet, A., et al., Effects of BDNF polymorphism and physical activity on episodic memory in the elderly: a cross sectional study. European Review of Aging and Physical Activity, 2015. 12: p. 15.)

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    A busca dos treinadores e preparadores físicos sempre segue no rumo da figura acima, ou seja, supercompensar e criar uma condição melhor de desempenho. Ciclos contínuos, que criam novas supercompensações em novas periodizações ou macrociclos de treinos para potencializar a performance.

    Convencionalmente é utilizado um acréscimo a cada novo ciclo de 5% aproximadamente de incremento geral, obviamente que qualquer número pré-estabelecido não faz parte de nossas indicações e prescrições que envolvem esse novo modelo de Periodização Bioflexível.

    Pensamos e ratificamos aqui que a preparação de um atleta vai muito além do treinamento técnico. É preciso monitorar a performance e todas as capacidades físicas para elaborar uma PERIODIZAÇÃO ADEQUADA e INDIVIDUALIZADA, que contenha estratégias que resultem numa evolução contínua e com segurança.

    Desta maneira, pensamos em anulação das possibilidades de queda de rendimento, estagnação ou overtraining, uma vez que os limites são identificados previamente e os incrementos ou recuperações são corrigidos imediatamente à necessidade identificada pelo monitoramento e não por períodos pré-determinados (números mágicos).

    A ideia central desta nova proposta é:

    Identificar o tempo todo (fulltime) o “PREÇO FISIOLÓGICO” de treinos e competições. Desta forma, encontra-se a menor relação entre a DOSE e a RESPOSTA do exercício, ou seja, quanto seria a menor dose capaz de provocar o menor impacto fisiológico e ainda assim capaz de produzir a maior performance possível.

    Foto: Divulgação/CBV

    Helvio Affonso é doutorando em Ciências Farmacêuticas, professor universitário de Fisiologia do Exercício, mestre em Ciências Farmacêuticas, especialista em Treinamento Desportivo de Alto Rendimento e em Fisiologia do Exercício e educador físico. Campeão mundial 2015 e Campeão Olímpico Rio 2016 como fisiologista da dupla de vôlei de praia Alison e Bruno Schmidt e sócio da Appto.

    Arilson Silva é pós-graduado em fisiologia, professor de educação física, técnico olímpico de natação, com atuação nos Jogos Olímpicos de Beijing 2008, Londres 2012 e Rio 2016. Possui dois recordes mundiais, dois finalistas olímpicos, sete medalhas em mundiais e dois campeões mundiais.


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